Publicado por: Djalma Santos | 26 de setembro de 2010

Propriedades do miocárdio

Entre as propriedades apresentadas pelo miocárdio (músculo cardíaco), quatro merecem ser destacadas, são elas: automatismo, condutibilidade, excitabilidade e contratibilidade.

I. Automatismo: por automatismo, denominamos a propriedade que o coração possui de gerar seus próprios batimentos. Isto é apoiado pelo fato de, em vários animais, ele continuar batendo mesmo depois de removido do corpo. O coração isolado de uma rã ou de uma tartaruga, por exemplo, pode bater várias horas se colocado em uma solução fisiológica, comprovando que o estímulo da contração do miocárdio é de origem miogênica (origem muscular). Os impulsos (atividades elétricas) são gerados numa pequena massa de tecido muscular especializada, denominada nodo sinusal, ou nodo sinoatrial, ou nodo de Keith-Flack, ou ainda seio nodal, situada na parede lateral superior do átrio direito, imediatamente abaixo e quase ao lado do orifício da veia cava superior, como mostra a figura a seguir.

01.seguir

Em virtude dessa estrutura “governar” a frequência dos batimentos, ela tem sido denominada marcapasso cardíaco. Os impulsos gerados no nodo sinusal se propagam inicialmente por toda a massa muscular atrial, provocando a sua contração e em seguida pelos ventrículos, como veremos adiante, promovendo, também, a contração dessas cavidades cardíacas. Dessa forma, o nodo sinusal controla normalmente a frequência dos batimentos de todo o coração. O músculo cardíaco não depende, portanto, da atividade nervosa para iniciar uma contração. Os nervos, entretanto, como veremos adiante, podem acelerar ou retardar essa atividade. É em função disso que o miocárdio é considerado um músculo neurorregulado, e não neuroativado (ou neuroatuado).

II. Condutibilidade: o estímulo gerado no marcapasso é conduzido, de modo semelhante a um impulso nervoso, até outro nodo, denominado atrioventricular (nodo A-V), ou nodo de Aschoff-Tawara, situado entre o átrio direito e o ventrículo direito, na parede que divide o coração nas suas duas regiões. A partir desse nodo, originam-se feixes delgados de tecido muscular cardíaco ramificado, feixes de His ou feixes atrioventriculares (feixe A-V) (ver figura acima). Finalmente, a rede (feixe) de Purkinje (micócito condutor cardíaco) distribui o estímulo pelas paredes dos ventrículos. Essa sequência coordena as contrações atriais e ventriculares.

III. Excitabilidade: o coração não só responde a estímulos próprios como também a estímulos de origem não cardíaca. Os nervos, as alterações na concentração de gás carbônico no sangue, a temperatura, o pH, certos hormônios e as alterações nas concentrações de íons como sódio, potássio e cálcio, entre outros fatores, são exemplos de agentes que atuam na regulação do ritmo cardíaco. No que diz respeito ao sistema nervoso, a atividade cardíaca é controlada pelos nervos parassimpáticos (os nervos vagos) e simpáticos, que inervam o coração (figura a seguir). Eles atuam ajustando as frequências cardíacas de acordo com as necessidades orgânicas.

02.ORGA

Os nervos parassimpáticosatuam diminuindo a velocidade dos batimentos cardíacos. Os nervos simpáticos, ao contrário, aceleram o coração, fazendo-o bater mais rapidamente e com maior intensidade. A estimulação dos nervos parassimpáticos faz com que o hormônio acetilcolina seja liberado pelas terminações vagais. A atuação da acetilcolina (transmissor parassimpático) consiste, principalmente, em reduzir a frequência do ritmo do nodo S-A e diminuir a excitabilidade das fibras juncionais A-V, entre a musculatura atrial e o nodo A-V, tornando mais lenta a transmissão do impulso cardíaco para os ventrículos. A estimulação dos nervos simpáticos, por seu turno, libera o hormônio noradrenalina (transmissor simpático) pelas terminações nervosas simpáticas. Este hormônio atua aumentando a permeabilidade das membranas das fibras musculares cardíacas ao sódio e ao cálcio, elevando a frequência cardíaca. As fibras nervosas secretoras de acetilcolina são denominadas colinérgicas, enquanto as que secretam noradrenalina são conhecidas como adrenérgicas.

Os trabalhos experimentais, relativamente simples e idealizados durante um sonho (*), demonstrando que os nervos podem exercer efeitos sobre a atividade cardíaca, foram realizados por Otto Loewi em 1921. Durante a sua execução (ver figura a seguir), ele isolou o coração de duas rãs, que continuaram a bater por certo tempo. Deixou um deles conectado ao nervo vago (coração 1) e o outro sem qualquer conexão nervosa (coração 2). Ambos os corações foram banhados em uma solução de Ringer (solução salina fisiológica). Ao estimular eletricamente, durante alguns minutos, o nervo vago, Loewi percebeu que o coração 1 diminuía seu ritmo (bradicardia), confirmando que o nervo vago atenua o ritmo cardíaco. Transferindo a solução fisiológica que se encontrava no coração inervado, durante o estímulo do vago, para o coração não conectado (coração 2), ele constatou que este coração também diminuía seu ritmo como havia ocorrido no coração 1. Pare ele, ficou claro que o nervo vago não influencia diretamente no coração, mas produz uma substância química (neurotransmissor) que faz o coração atenuar seu ritmo. Foi demonstrando, mais tarde, que esse neurotransmissor era a acetilcolina. Trabalho semelhante foi realizado estimulando o simpático. Neste caso, ele constatou uma aceleração nos movimentos cardíacos (taquicardia). Em 1936 Otto Loewi recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina por suas descobertas relativas à transmissão química dos impulsos nervosos.

03.NERVOSO

(*) Sonho de Otto Loewi

No sábado de Páscoa de 1921, Loewi sonhou com uma experiência demonstrando que os nervos podem exercer efeitos sobre o batimento cardíaco. Ele acordou, rabiscou a experiência em um pedaço de papel e voltou a dormir. Na manhã seguinte, levantou-se muito animado porque sabia que o sonho tinha sido muito importante. Ele não conseguiu, entretanto, ler os rabiscos que escrevera. Naquele dia, disse ele, foi o dia mais longo da sua vida. Na noite seguinte, teve o mesmo sonho. Dessa feita, foi imediatamente para o laboratório a fim de realizar o experimento que havia sonhado e descrito resumidamente acima.

IV. Contratilidade: propriedade que tem o músculo cardíaco de se contrair em decorrência do seu automatismo ou decorrente de estímulos externos.

Como se pode constatar, o coração é dotado de sistema especializado para gerar impulsos rítmicos capazes de promover a contração ritmada do músculo cardíaco e conduzir esses impulsos rapidamente por todo o miocárdio.

FIXANDO

01. (UNIVASF)

LEIA OS VERSOS DA MÚSICA CARINHOSO, DE AUTORIA DE PIXINGUINHA E JOÃO DE BARROS.

“Meu coração

Não sei por que

Bate feliz, quando te vê…”

Analise as proposições abaixo sobre o coração dos mamíferos, colocando Vnas verdadeiras e Fnas falsas.

(     ) O movimento de contração do coração é denominado sístole e o de relaxamento, diástole.

(     ) Nos mamíferos,  os batimentos  cardíacos obedecem  ao ritmo de impulsos oriundos do nodo sinoatrial, sendo, portanto, a geração desses batimentos determinada por fenômenos miogênicos.

(     ) Apesar desse automatismo da contração, os batimentos cardíacos têm mecanismos reguladores relacionados com o sistema nervoso por meio dos nervos vago e simpático, que provocam, respectivamente, diminuição e aceleração da frequência cardíaca.

(     ) O nervo vago tem ação cardioaceleradora, através da liberação de noradrenalina, enquanto os nervos simpáticos têm ação cardiomoderadora, pela liberação de acetilcolina.

(     ) O sistema nervoso  parassimpático  atua reduzindo  os batimentos cardíacos através da liberação, pelas fibras parassimpáticas, da acetilcolina, enquanto o sistema nervoso simpático atua acelerando os batimentos cardíacos através da liberação, pelas fibras simpáticas, da noradrenalina.

Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.

a) V V V F V.

b) F V V V F.

c) V F F F V.

d) V F V V F.

e) V V F V F.

02. (UPE) No sistema cardiovascular dos mamíferos, o coração funciona como uma bomba que, ritmicamente, se contrai e relaxa. O sangue é bombeado para os vasos sanguíneos. Um coração saudável bate entre 60 a 80 vezes por minuto. Com relação ao controle da frequência dos batimentos cardíacos, pode-se afirmar que:

a) O ritmo dos batimentos cardíacos pode ser acelerado pela ação dos nervos parassimpáticos ou retardado pela ação dos nervos simpáticos.

b) O ciclo cardíaco é provocado por impulsos elétricos gerados no nodo sinoatrial, controlando a ritmicidade cardíaca.

c) O músculo cardíaco, denominado miocárdio, apresenta contrações involuntárias e, por isso, o ritmo de suas pulsações não é afetado por ação nervosa.

d) O nodo atrioventricular, inicialmente atuando como marcapasso, determina a contração dos ventrículos num primeiro momento, e dos átrios posteriormente.

e) O coração depende de minúsculos impulsos elétricos, que são propagados de forma desordenada entre suas câmaras.

03. (CESCEM) Um pesquisador isolou dois corações e montou o experimento, esquematizado no desenho abaixo, de tal modo que o líquido que banhava o coração I banhava, em seguida, o coração II. Estimulando o nervo vago (V) do coração I, notou que a frequência de batimento desse coração diminuía e que, depois de certo tempo, a frequência de batimentos do coração II também diminuía. Com base nesses resultados, pode concluir que:

03.T

a) Apenas a estimulação nervosa influencia a frequência de batimentos cardíacos.

b) A frequência de batimentos do coração não sofre influência do sistema nervoso.

c) O nervo, quando estimulado, liberava uma substância que agia sobre o coração.

d) Não é possível alterar a frequência de batimentos cardíacos pela administração de drogas.

e) A estimulação elétrica é diretamente responsável pelas alterações das frequências de batimento dos dois corações.

04. (UFBA) Coração de sapo, removido do animal e colocado em solução fisiológica adequada, continua a pulsar. Estimulando-se o nervo vago desse coração com uma corrente elétrica, os batimentos tornam-se mais lentos. Banhando-se outro coração, desprovido de nervo vago, com a mesma solução fisiológica, seus batimentos também se tornam mais lentos. Isso mostra que a diminuição do ritmo dos batimentos cardíacos resulta:

a) De um componente da solução fisiológica.

b) De impulsos nervoso.

c) De um estímulo elétrico.

d) Das células cardíacas.

e) De uma substância produzida pelo nervo vago.

05. Assinale a(s) alternativa(s) correta(s):

I    II

0   0 – A sincronização do  trabalho cardíaco  é  controlada  apenas pelo nodo sinoatrial.

1    1 – O marcapasso tem sua atividade estimulada pela acetilcolina.

2   2 – O marcapasso tem sua atividade inibida pela ação da adrenalina, hormônio produzido pelas terminações nervosas do sistema nervoso simpático.

3   3 – O nervo  vago,  graças à  secreção de  adrenalina,  estimula  a atividade cardíaca.

4   4 – O automatismo cardíaco é devido ao nodo átrio-ventricular.

06. (UESPI) O controle dos batimentos cardíacos no coração do homem é devido a uma região específica do coração (A), cujas células emitem um sinal elétrico que se propaga diretamente para a musculatura dos átrios, provocando sua contração, e a outra região especializada (B), que distribui o sinal gerado por (A), estimulando a musculatura dos ventrículos a entrar em sístole. A e B são, respectivamente:

a) Nodo sinoatrial e nodo atrioventricular.

b) Valva atrioventricular e valva tricúspide.

c) Marcapasso e valva tricúspide.

d) Marcapasso e valva atrioventricular.

e) Valva mitral e valva atrioventricular.

07. (UEL) O esquema abaixo representa o coração humano em corte longitudinal.

07.T

A região que controla a frequência dos batimentos cardíacos, denominada nodo sinoatrial, está indicada por:

a) I.

b) II.

c) III.

d) IV.

e) V.

08. (U. F. Uberlândia) O frasco 1contém solução nutritiva que, após banhar um coração colocado no recipiente 2, vaza para o recipiente 3, banhando outro coração.

08.T

Estimulando-se o nervo vago do coração do recipiente 2, espera-se que, após algum tempo, o coração do recipiente 3 tenha sua frequência:

a) Aumentada pela liberação de acetilcolina no recipiente 2.

b) Diminuída pela liberação de acetilcolina no recipiente 2.

c) Aumentada pela liberação de adrenalina no recipiente 2.

d) Diminuída pela liberação de adrenalina no recipiente 2.

e) Aumentada pela liberação de noradrenalina no recipiente 2.

09. (PUC-MG) A função do nodo sinoatrial no coração humano é:

a) Regular a circulação coronariana.

b) Controlar a abertura e fechamento da valva tricúspide.

c) Funcionar como marcapasso, controlando a ritmicidade cardíaca.

d) Controlar a abertura e fechamento da valva mitral.

e) Controlar a pressão diastólica da aorta.

10. (PUC-SP) Um sapo, através de uma pequena intervenção cirúrgica, teve seu coração isolado, o qual foi mantido pulsando em condições laboratoriais. O fato de estar isolado e continuar pulsando demonstra que:

a) O coração é uma bomba hidráulica.

b) O coração é constituído de células musculares lisas.

c) O coração não apresenta fibras condutoras de estímulo.

d) As terminações nervosas parassimpáticas continuam estimulando o miocárdio.

e) O coração é um órgão capaz de se autoestimular.

GABARITO

 

01

02

03

04

05

06

07

08

09

10

A

B

C

E

FFFFF

A

C

B

C

E


Responses

  1. 05. Assinale a(s) alternativa(s) correta(s):

    I II

    0 0 – A sincronização do trabalho cardíaco é controlada apenas pelo nodo sinoatrial.

    Qual o porquê deste ser falso, professor?

    • Já percebi o erro, professor. Ele está em “apenas pelo nodo sinoatrial”. Falta de atenção minha.

  2. Professor, estou em duvida nessa questão:
    5. Assinale a (s) alternativa(s) correta (s):
    3 3 – O nervo vago, graças a secreção de adrenalina, estimula a atividade cardíaca
    Por qual razão está errado?

    • Cara Deborah
      -* “ … 3 3 – O nervo vago, graças à secreção de adrenalina, estimula a atividade cardíaca. …” INCORRETA
      * A estimulação do nervo vago diminui a frequência cardíaca.
      * O nervo vago (parassimpático) exerce restrição contínua sobre a ação do coração.
      Um abraço
      Djalma Santos

  3. muito interessante mesmo mi ajudou muito

  4. favor continue apublicar para o bem da ciência força para novo desafio


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