Publicado por: Djalma Santos | 10 de maio de 2012

MIMETISMO E CAMUFLAGEM

O ajustamento que todos os organismos apresentam em relação ao ambiente em que vivem é denominado adaptação. Dessa forma, eles apresentam muitos aspectos anatômicos, fisiológicos e etológicos (comportamentais) ajustados ao seu modo de vida, adotando cores, odores, aspectos ou forma de movimento que os ajudam a passar despercebidos. O mimetismo (semelhança com outras espécies) e a camuflagem (“disfarce” em relação ao ambiente) são exemplos marcantes de adaptação que várias espécies desenvolveram ao longo da evolução. Apesar de ser uma classificação um tanto subjetiva e sujeita a alguns casos intermediários, constata-se que mimetismo e camuflagem constituem estratégias distintas. Enquanto no mimetismo um ser está querendo passar por outro, na camuflagem ele está procurando se esconder para não ser visto. Graças ao mimetismo e à camuflagem, os seres vivos podem escapar do ataque de predadores ou se aproximarem de suas presas sem serem percebidos.

MIMETISMO

Mimetismo é um fator de adaptação evolutiva em que duas ou mais espécies diferentes assumem algumas semelhanças físicas ou de comportamento que são reconhecidas por outras espécies. Essas semelhanças compartilhadas conferem vantagens para uma ou para ambas as espécies miméticas. Os seres mais imitados são aqueles cujas características nocivas deixam uma impressão duradoura nos predadores. Há casos, por exemplo, de animais e plantas de sabor agradável para quem deles se alimenta (palatáveis), que se assemelham a outras espécies não palatáveis, de modo a confundir seus predadores, obtendo vantagens em função disso. Dessa forma, imitar a não palatável é ser desprezada como ela e, assim, ficar menos exposta ao ataque dos inimigos. Citamos, a seguir, alguns exemplos de mimetismo:

I. Borboletas vice-rei/borboletas monarcas: as borboletas vice-rei (Limenitis archippus), de sabor agradável aos pássaros, apresentam grande semelhança com as borboletas monarca (Danaus plexippus), de sabor desagradável e extremamente tóxicas (figura abaixo), sendo ambas evitadas por pássaros predadores, com evidente benefício para a “imitadora” (borboleta vice-rei), que, em última análise, mimetiza a monarca, que armazena toxinas em seus tecidos. Os predadores “aprendem” a associar o padrão de coloração (coloração de advertência ou coloração de aviso) ao sabor desagradável e evitam capturar essas borboletas. Essa relação borboleta vice-rei/borboleta monarca é um exemplo clássico de mimetismo batesiano, que veremos mais adiante.

01.adiante

Coloração de advertência (coloração de aviso ou aposematismo)

Alguns animais, principalmente insetos, anfíbios e répteis, produzem ou acumulam substâncias químicas nocivas e apresentam coloração vistosa, denominada coloração de advertência. Essa coloração em vez de escondê-los, como no caso da camuflagem, destaca-os no ambiente, sinalizando que eles não devem ser ingeridos. A coloração de aviso funciona, dessa forma, como proteção, alertando os predadores que o animal que a ostenta tem sabor desagradável, é tóxico ou é perigoso, sendo melhor evitá-lo. Quem tenta se alimentar de um desses organismos “aprende” a não comer outro semelhante. É o caso das borboletas de cores vivas, geralmente de sabor desagradável ou tóxica aos seus predadores, como a monarca (figura a seguir), que, ingerida por um pássaro, levá-o a sentir-se mal e a vomitar.

02vomitar

Outros exemplos são rãs (figura abaixo) e sapos coloridos, em cuja pele há venenos poderosíssimos, e répteis peçonhentos como as cobras-corais (figura abaixo) e certos lagartos, cujo padrão de cores vivas da pele alerta sobre o perigo que representam. Um predador inexperiente ataca presas dotadas de coloração de aviso, mas logo “aprende” a associar a sensação ruim à cor vistosa. Mesmo que ensinar a “lição” ao predador possa custar a vida de alguns indivíduos da população, esta será beneficiada ao todo.

03.todo

II. Corais verdadeiras/corais falsas: as corais-verdadeiras (Micrurus coralinus) são bastante temidas, sendo uma das mais perigosas em função da potência do seu veneno neurotóxico. Ao contrário de muitas espécies que se confundem com o ambiente, elas são dotadas de coloração vistosa (coloração de advertência), alertando eventuais predadores, que se mantêm afastados. As falsas-corais (Erithrolampus aesculapi), por outro lado, embora apresentem coloração de advertência semelhante às corais-verdadeiras, não apresentam dentes inoculadores de peçonha. Sendo não peçonhentas, não oferecem grandes perigos a eventuais atacantes. A semelhança do padrão de coloração dessas serpentes (figura a seguir), embora pertençam a famílias diferentes, favorece as falsas-corais, que, a exemplo das corais-verdadeiras, também são evitadas pelos seus predadores (seus inimigos naturais). Esse fato é resultante de adaptação da falsa-coral, cujos ancestrais provavelmente se beneficiavam por serem parecidos com as corais-verdadeiras, com as quais conviviam. Essa relação corais verdadeiras/corais falsas, da mesma forma que a relação borboleta vice-rei/borboleta monarca, vista acima, constitui também um exemplo de mimetismo batesiano, que veremos mais adiante.

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III. Orquídea Ophrys apifera: essa orquídea (figura abaixo), bastante comum na área mediterrânica e vulgarmente chamada erva-abelha, possui flores que lembram as fêmeas de uma espécie de abelha (Eucera nigrilabris). Ela também emite um odor semelhante ao feromônio que a fêmea dessa abelha exala para atrair os zangões. Essas semelhanças induzem os machos a tentar “copular” com as referidas flores, “pensando” que está se acasalando com uma fêmea da sua própria espécie. Esta pseudocópula acontece, normalmente, com insetos machos ainda inexperientes, que saem do casulo antes das fêmeas e se precipitam para se acasalar. Com isso, eles levam os grãos de pólen de uma flor para outra, antes de darem pelo engano. Dessa forma, eles atuam como um eficiente agente polinizador, contribuindo para a reprodução da orquídea. Este exemplo de mimetismo é denominado mimetismo reprodutivo.

05.reprodutivo

IV. Borboleta-coruja: pertence a um grupo com cerca de 80 espécies que ocorrem na América do Sul e pela sua denominação percebe-se que ela imita uma coruja (figura a seguir). Nas suas asas, pelo lado de dentro, ela apresenta um desenho semelhante ao rosto de uma coruja, com destaque para os olhos enormes e abertos. Essa estampa serve de maneira eficiente para driblar seus predadores, na maioria pequenos animais, já que parece ser um animal maior e mais perigoso do que realmente é. Em verdade, ela é um dos maiores exemplares de borboletas que se conhece, chegando a medir até 18 centímetros de envergadura, ou seja, de ponta a ponta das asas. Via de regra, as fêmeas são maiores e menos coloridas que os machos. Nenhum exemplar, entretanto, é igual ao outro, propriedade que funciona como uma impressão digital. Cada exemplar possui características únicas no formato de seus desenhos, muitas vezes até aparentando ser de espécies diferentes.

06.difere

Mimetismo batesiano

Mimetismo de defesa em que um modelo tóxico ou perigoso é imitado, evolutivamente, por espécies “saborosas” ou inofensivas, evitando, dessa forma, serem atacadas pelos predadores. Trata-se, portanto, de um mecanismo especial que não visa “esconder” o organismo. A relação borboletas monarcas/borboletas vice-rei, bem como a relação corais verdadeira/corais falsas, mostradas acima, são exemplos de mimetismo batesiano, cuja denominação se deve ao naturalista inglês Henry Walter Bates.

Estudando, no século XIX, borboletas na Amazônia, Bates constatou que representantes de duas famílias distintas, Heliconiidae e Pieridae, apresentavam uma grande semelhança na cor e nos desenhos das asas. A despeito dessas semelhanças, os representantes da família Heliconiidae são dotados de um sabor bastante desagradável aos pássaros, que os evita, enquanto os da família Pieridae são, a princípio, bastante apreciados pelos pássaros em função do seu sabor agradável. Iludidos pela coloração de aviso, exibida pelos dois representantes, os pássaros passam a evitar, também, as borboletas de sabor agradável. Dessa forma, a semelhança visual entre os dois espécimes favorece, seletivamente, os representantes da família Pieridae. Do exposto, podemos inferir que o sucesso do mimetismo batesiano, em que o organismo imita outros perigosos, está na dependência do condicionamento rápido dos predadores.

Mimetismo mülleriano

Mimetismo em que duas ou mais espécies de sabor desagradável ou venenosas para os predadores apresentam coloração de advertência semelhante. Graças a essa “analogia”, ambas ampliam o número de espécies de inimigos que passam a evitá-las. Esse tipo de mimetismo, cuja denominação se deve ao pesquisador alemão naturalizado brasileiro Fritz Müller, ocorre, por exemplo, entre as corais-verdadeiras, todas peçonhentas. O fato de as várias espécies dessas corais serem parecidas leva os inimigos a evitar todas elas.

Em suas pesquisas, desenvolvidas com borboletas, Muller constatou, em 1864, que a semelhança entre diferentes espécies tóxicas faz com que todas elas sejam protegidas dos predadores, que procuram, apenas, evitar a coloração de advertência. Dessa forma, a semelhança entre elas faz com que todas tenham vantagem.

CAMUFLAGEM

A camuflagem pode ser definida como a propriedade que os membros de uma espécie possuem de desenvolver uma ou mais características corporais, no formato e/ou na coloração do corpo, que as tornam semelhantes ao seu meio ambiente, dificultando sua detecção. A figura abaixo, que mostra o sapo roxo escondido entre a folhagem, é um exemplo de camuflagem.

07.camuflagem

É igualmente difícil discernir um veado  novo entre as folhagens, devido a sua cor parda e às suas pintas escuras. “Escondidos”, os animais apresentam mais condições de sobrevivência, já que sua localização é dificultada pelos seres com os quais convivem. Camuflado, o animal pode se “esconder” do seu predador e o predador pode, por seu turno, se “esconder” de sua presa, possibilitando uma caça mais eficiente. O desenvolvimento da camuflagem está sempre associado à sobrevivência do organismo. Dessa forma, as características corporais que o confunde com o ambiente não são as mesmas para todos os seres vivos. Não há sentido, por exemplo, um animal se assemelhar a cor do seu habitat se o seu principal predador for sensível a essas cores. A camuflagem, “disfarce” do organismo que o confunde com o ambiente ao seu redor, pode se manifestar de duas formas: homocromia e homotipia (homomorfia).

I. Homocromia: refere-se à semelhança de cor entre certas espécies e o meio em que vivem, combinando seu padrão de cor com cascas de árvores, cor de areia, galhos e folhas, por exemplo, confundindo seus perseguidores. Analogamente, certos predadores podem apresentar a cor do meio de modo que a presa não percebe sua presença e é mais facilmente capturada. A homocromia é observada em um grande número de insetos, répteis e aves, dentre outros seres vivos, cuja coloração verde permite que eles se camuflem entre as folhagens. Há ainda insetos marrons que habitam região também marrom, onde se escondem e ficam menos sujeitos ao ataque dos seus inimigos.

Como exemplos de homocromia citamos:

Ia. O camaleão, animal cromático, que, com o auxílio dos cromóforos (células da pele dotadas de pigmentos), muda facilmente sua cor, acompanhando o local onde se encontra (figura a seguir). Na grama, por exemplo, fica verde. Num tronco de árvores, por outro lado, seu corpo assume a cor marrom. Os cromóforos possuem a capacidade de se contrair ou se distender, mudando, dessa forma, a tonalidade da pele. Desse modo, o camaleão controla seu padrão de pigmentação, assemelhando-se ao ambiente onde se encontra.

08.enconta

Ib. O linguado, peixe bentônico muito apreciado pela consistência macia e pelo sabor de sua carne, é o nome vulgar de várias espécies, a maioria delas pertencentes aos gêneros Paralichthys e Solea. Ele chama atenção, logo à primeira vista, pelo formato do corpo, que, sendo oval e achatado lateralmente, foge às normas dos vertebrados em geral, que apresentam simetria bilateral. Outro detalhe interessante é a posição dos seus olhos, ambos localizados em só lado da cabeça (figura abaixo).

09.abaixo

Para se proteger dos predadores, seu corpo apresenta manchas que imitam o fundo dos locais onde vive (figura a seguir), tanto para se defender quanto para se alimentar. Parado, dificilmente será visto por um mergulhador inexperiente. Nele, a exemplo do que ocorre com o camaleão, há células especiais que controlam seu padrão de pigmentação.

10.pigmenta

Ic. A raposa-do-ártico apresenta pelagem totalmente branca durante o inverno, quando o ambiente está coberto de neve, constituindo-se uma adaptação a esse ambiente. Em outras épocas do ano, quando não há neve, ela exibe pelagem acinzentada (figura abaixo). No inverno, a pelagem branca faz com que as raposas se confundam com o ambiente, tornando-se menos visíveis, o que facilita sua aproximação das presas e sua ocultação de predadores. Quando não há neve, a pelagem cinzenta confere maior camuflagem.

11.maior camulf

Id. Animais polares como o urso (figura a seguir) e a lebre que sendo brancos tornam-se, à distância, pouco visíveis sobre o gelo.

12.gelo

Ie. As águas-vivas que, sendo transparente, se confundem com o meio em que vivem.

If. Serpentes que por apresentarem coloração semelhante à do meio (figura abaixo), ficam menos visível aos predadores e aumentam sua capacidade de capturar suas presas, aumentando, portanto, sua capacidade de sobrevivência.

13.sobrev.

Ig. Melanismo industrial (Biston betularia clara-Biston betularia escura): a espécie Biston betularia, bastante comum na Inglaterra, possui uma variedade clara, também chamada de forma “typica”, e outra escura (melânica), denominada “carbonaria” (figura a seguir).

14.mel.ind

No início do século XIX, antes da industrialização no Reino Unido, a variedade clara era a mais comumente encontrada nos arredores de Londres, enquanto a melânica era rara. Testes genéticos mostraram que as diferenças entre essas duas variedades eram devidas a um único gene e que a cor escura era dominante. A condição, na época, tornava reduzido o nível de poluentes, levando a que os troncos das árvores, cobertos de liquens, tivessem tonalidade acinzentada, semelhante à exibida pelos exemplares claros. Em função disso, a variedade clara era menos visível ao ataque dos predadores, pois ficava camuflada e deixava maior descendência a cada geração. A variedade melânica, por outro lado, devido ao contraste com o meio, tornava-se muito visível para os predadores, que se alimentavam dela. A fuligem, resultante da industrialização, matou os líquens e enegreceu o tronco das árvores evidenciando os exemplares claros e camuflando a variedade escura, que, se confundindo com o substrato (figura abaixo), passaram a deixar maior número de descendente, que a variedade clara, que passou a ser mais caçada. Dessa forma, os claros, mais atacados, passaram a ser raros, enquanto a variedade escura, bem-adaptada às novas condições, passou a ser a mais comum. Essa flutuação das populações resultou, em última análise, da seleção natural promovida pelos predadores que passaram a ter mais acesso à variedade clara que aos exemplares escuros, que não são bem percebidos sobre as cascas enegrecidas das árvores.

15.arvores

II. Homotipia: refere-se à semelhança de forma entre um ser vivo e um objeto presente no ambiente que ocupa. Como exemplos, citamos o bicho-folha e o bicho-pau (figura a seguir). O primeiro se assemelha a folhas e o segundo apresenta forma muito parecida com a de um graveto, sendo dificilmente percebidos pelos predadores, seus inimigos naturais.

16.naturais

Do exposto, pode-se concluir que mimetismo e camuflagem são adaptações utilizadas pelos predadores para surpreender as presas e pelas presas para se protegerem dos predadores. São, portanto, adaptações predadores-presas.


Responses

  1. muito maneiro

  2. po vlw me ajudou muito por mais q seja chato ciências me ajudou no meu trabalho de ciências vlw vou lar

  3. parabens!Texto muito completo!

  4. me ajudou muito…

  5. Luciana Santos.
    Parabéns! seu texto foi didático completo e bem exemplificado.Obrigada.


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